09 Março 2006

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”

Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.


Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos (1940)

08 Março 2006

Últimas palavras, 1

— As últimas palavras dele foram para mim, imagine.
Não me diga.
— É verdade.
Triste, não?
Triste e no entanto honroso.
Claro, claro, uma grande distinção! E que lhe disse ele na hora do estertor, posso saber?
— Disse-me…bem, foi um pouco enigmático…disse-me…
Sim?
— …que era de mim que ele mais gostava, desde o princípio, e que queria dar-me um conselho. O conselho, esse, é que foi algo enigmático…
Como assim, enigmático?
— Num último sopro, segredou-me: «Para entender o tigre, volte-se para Oriente. Não se esqueça…para…Ori…ente.» E expirou, muito sereno.
— O tigre?
Julgo
perceber a alusão. eu, aliás, a posso perceber. Mas para Oriente, porquê para Oriente?

Últimas palavras, 2

— …e foi a mim que ele reservou as suas últimas palavras.
— A si?!
Estranho, não é?
Muito.
— E mais ainda o que me disse. E mais ainda o sorriso com que o disse.
Mas disse o quê, afinal?
isto: «Era de si que eu mais gostava. Faça sempre assim como fez. Venha depois, sempre depois, e seja sempre anterior. Anterior…ao anterior. Ouviu?» E expirou, muito sereno, sorriso nos lábios, julgo que era um sorriso.

Últimas palavras, 3

— E fui eu o último com quem ele falou.
— Foram para si as últimas palavras?
— É verdade. Muito inesperado.
Que privilégio!
Obrigado. Falou pouco, foi muito breve, brevíssimo.
— Conte, conte.
Quase em surdina, disse-me apenas isto: «Foi de si que eu mais gostei. Deixo-lhe o mais importante…deixo-lhe o meu último superlativo. Guarde-o bem.» E expirou, quase imperceptivelmente.
— Guarde…? Mas guarde o quê?
Você ouviu. O último superlativo. A herança, portanto.

Últimas palavras, 4

Nunca esquecerei as suas últimas palavras.
— As últimas? Foi a si que ele as disse?
Claro. A quem havia de ser?
Pois
— Começou, aliás, por me tirar as poucas dúvidas que havia: «Entre todos, era de ti que eu mais gostava.» Assim, textualmente.
Pois
— E acrescentou, antes mesmo de entregar a alma ao vazio: «Tu eras perfeito nos teus caminhos.» Logo depois, o silêncio. Definitivo.
Pois

Últimas palavras, 5

(chorando) …e foram tão bonitas as suas últimas palavras!...

— Vá , acalme-se. Teve a honra de lhe ouvir as últimas palavras, então?

(suspirando) Tive, tive. E foram tão bonitas. Tão bonitas…

Mas diga quais foram, diga !

muito fraquinho segredou-me: «Nem preciso de dizer que era de si que eu mais gostava.» (rompe a chorar de novo)

isso?... Vá , acalme-se.

(suspirando) Ele quis explicar-me porque era eu a escolhida, mas ouvi qualquer coisa de incompleto. isto: «…alguma rua, alguma torre, um trecho de praia, e era toda alegria» E depois(rompe num pranto interminável)

Últimas palavras, 6

— As últimas palavras, as últimas palavras.

Sim, sim, mas quais, quais?

— Garantiu-me, com a voz a sumir-se: «Foi de si que eu mais gostei, sabe?»

— E depois morreu?

Não. Primeiro, abriu muito os olhos e disse: «Sabe, às vezes as casas morrem meninas…» E foi tudo.

— As casas?...

Últimas palavras, 7

Nem acredito que lhe ouvi as últimas palavras
Mas
Não, não, asseguro-lhe que foram as últimas! Eram últimas por natureza!
Como assim?
— Fez uma pausa depois de me dizer com simpatia: «Foi de si que eu mais gostei, meu caro.» E depois da pausa, arfante: «Para si, a suma das sumas, o resto dos restos» E as pálpebras desceram-lhe lentas sobre os olhos.
Que dramático!
— A prova de que falava para mim, não apenas comigo. Como sempre, aliás.

Últimas palavras, 8

Bolas, nem acredito que ele me disse aquilo antes de morrer!

Mas o que é que ele disse?

— Olhe, disse-me : «Quando isto acabar, veja se janta bem e vá ao teatro. Adeus.» É preciso ter lata!

Fogo-de-artifício 9 (reprise nocturna)

LM – Um silvo a cortar o ar frio da noite!
GR – Já viu, Clara, como o fogo sobe no ar!
CA – Já viu, meu querido Rubim, como a luz anuncia a chegada do som!
ABB – Lá no alto, chispas coloridas numa campânula de luz!
OMS – Uma tremenda expansão de energia contida!
PS – Depois um estouro, e depois outro, e outro, e outro, um rumor de estampidos.
FMO – Brancas, vermelhas, amarelas, azuis, as lágrimas cintilam em arcos de luz.
LQ – Um breve brilho brilhante bruxuleia.
MP – E as cinzas beijam o orvalho que as espera no chão.

Stadium




- Acenda aí, Groucho. Hoje acompanho-o.
- E aqui neste digestivo?
- Uma vez sem exemplo, mas sim.
(fumam e bebem)
- Grande adrenalina, não foi?
- E eu que nem sequer sou benfiquista.
- E tudo perfeito, não acha Mourão?
- Ah, estava a ver que nunca mais deixava o Sr. no tinteiro, Groucho!
- Hoje aprendi muito, amigo Mourão. Foi cá um dia! Mas você sabe, claro.
- Sabemos todos. (pensativo) Sabemos todos.
- E se quer que lhe diga, também um perfeito exemplo do porquê da produtividade nacional ser o que é!.. (riem ambos)
-
Mas ó Groucho, bem sabe que a criatividade não tem esses horários. Nós somos gente de passar os fins-de-semana a queimar pestanas e...
- Pronto, deixe lá isso, não era propriamente uma crítica.
- Claro, onde é que eu tinha a cabeça? (fumaça mais funda) Há muito tempo que não fumava!..
- Você é um bocado ascético, hein, Mourão?
- Isso era uma longa conversa... (pausa) Por falar nisso, aquilo lá por baixo é vivível, ou é mais como o Silvestre diz aí há uns posts atrás?
- Hum... Nem uma coisa nem outra, Mourão, antes completamente diferente. E mais não consigo dizer.
- Coisa só de experiência feita, estou vendo.
- De facto não está vendo, mas sim, é isso.
- E vai voltar de vez em quando, como agora?
- Não. Estou em trânsito, mas logo logo partirei de vez.
- Hum... E vai ainda, como dizer, despedir-se dos outros casmurros?
- De cada um à maneira de cada um.
Pausa. Groucho expele uma grande fumaça em arco, ficam os dois olhando e sorrindo.
- Aquele golo, Mourão...
- Pois...
- E tudo perfeito, reparou? O azar altíssimo dos ingleses, aquele Gerard enorme...
- E o público, que me diz daquele público? Aqueles cânticos logo depois da sentença do segundo golo, aquela nobreza...
- Um arrepio.
- Um estremecimento.
Fumam, bebem.

Horror

Andrés Serrano, “Klans man (Knight I Lawk of Georgia of the Invisible Empire III)”, 1990.
- Mas então, na sua opinião Sr. Serra, esta obra do fotógrafo Andrés Serrano...
- Sim, sim Sr. Serra, pode ajudar-nos a distinguir o que podemos chamar um ironista petit maître de um nível superior de ironista.
- Como assim?
- A obra do fotógrafo Andrés Serrano expõe – ou, digamos, torna visível – que o ironista petit maître acaba sempre por “esconder” um moralista.
- Este Andrés Serrano é cá dos meus.
- E dos meus, mas há poucos, demasiado poucos, muito poucos mesmo. Andrés Serrano interessa-se como eu pela arte, que é sempre coisa dos vivos.
- Quer também então dizer, Sr. Serra, que o “Knight I Lawk of Georgia”, ironista petit maître, é face da morte, que é o que o Vázquez Montalban dizia ser, por exemplo, a culinária?
- Enfim, Sr. Serra, quer dizer que, e não veja nisto um desdizer, que o que interessa é a vida que esconde essa bela face da morte. E, entretanto, que o poder está sempre nas mãos de um petit maître.
- Um horror, Sr. Serra.
- O horror, Sr. Serra, o império invisível do horror.

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Sempre li que, ao chegar-se cá, percorria-se um túnel cada vez mais iluminado e, quando enfim atingido o outro lado, um gozo inefável tomava conta de nós. Mas afinal não é nada disso. É assim como estar a assistir ao 10 de Junho pela TV: discursos, pianadas da Maria João Pires, discursos, poemas patrióticos ditos por actores do D. Maria II, medalhas, almoçaradas num grande pavilhão para uns centos de cidadãos – e todo o povo na praia…
Há coisas mais entusiasmantes, com franqueza. Até porque nem há ninguém a quem pedir que fique comigo esta noite. Ou melhor, haver há, mas é tudo gente entre o transparente e o translúcido. A Sharon Stone, aqui, bem podia descruzar as pernas que só suscitaria o bocejo geral. Porque vê-se tudo, através de tudo. Uma versão não-ideológica do Panopticum. O céu é o Panopticum e eu já li todos os livros...
Falta por aqui um pedacito de dialéctica - da negativa, de preferência. Falta a resistência dos materiais. Falta mundo. Falta-me o Desportivo de Chaves. Não é que não haja gente simpática. Mal cheguei, a Irmã Lúcia veio trazer-me um chá de limonete. Delicioso, muito simpática e sorridente, mas a conversa, santos deuses (bem que o posso dizer…)! A azinheira, a senhora tão linda pendurada em cima dela, os segredos, a bela vida no convento, as saudades da horta… Quase senti saudades daquela cáfila lá do clube. Como é possível?! Irra! Nunca se está bem, é o que é.

(Já agora, alguém aí de baixo me pode dizer como vai o jogo do Benfica? É que eu sou do Liverpool desde pequenino…)

HIPER EXTRA! HIPER EXTRA!

O Groucho está no pé do Simão!
vocês viram aquilo, carago? e eu sou completamente azul, que não haja dúvidas acerca disso, mas vocês viram aquilo, carago? lembram-se de como o Groucho fumava? daquele modo de fazer o arco? ficava numa ponta do clube e mandava o fumo pelo janelão do meio, lembram-se? as volutas, os ornamentos, a leveza, a poesia? vocês viram aquilo, carago?

(viram sim senhor, que ninguém postou desde os dez minutos iniciais — isto sim, é um clube de cavalheiros sem pachorra para aquele cujo nome não devemos pronunciar!)

Mais menoscabo?

—Isto não está a ficar um bocado parvo?
— Muito parvo, acho eu...
— Vá lá, cite lá o Drummond, qualquer coisa...
— Aí vai:
Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.

—Gaita, isso não, ainda nos fecham a loja! Mas que menoscabo é este?

(Muitas gargalhadas.)



SUPER EXTRA! SUPER EXTRA!

Groucho era a alma de Alberto João Jardim!
Está parcialmente desvendado o mistério do desaparecimento de Groucho. Habitou a alma de Alberto João Jardim até à recusa deste em desfilar no último carnaval madeirense. Regressado dos mortos risíveis, tentou ainda enfiar-se num canto da alma daquele cujo nome não devemos pronunciar, mas o caminho era estreito e seco, e tudo indica que tenha perecido no insano intento.

ler mais desenvolvimentos aqui

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Porquê o nada e não o ser?
A interrogação (a aflição?) percebe-se melhor por exemplos:

Porquê o nada e não a Inês Pedrosa?
Porquê o nada e não o Mourinho?
Porquê o nada e não o Mantorras?
Porquê o nada e não o Abrupto?
Porquê o nada e não o Marques Mendes?

Não seria assustador, um mundo com tais nadas?

Eu, Groucho, tenho saudades do tempo em que não era nada.
Ser casmurro é isso: não ser nada.
Lutar para não ser nada.
Apenas um risco no ar.
Melhor que nada.

Ars moriendi 2



- Isto hoje é tudo uma questão de especialistas. Aliás, o Sr. Serra até já esteve na morgue.
- Mas o Groucho…
- Lembra-se de Six Feet Under? Apesar de tudo, a morte era já cenário.
- Mas o Groucho…
- O que o Sr. pode fazer, com mais proveito, é tratar da vidinha.
- Mas o Groucho…
- Digo-lhe mais: consulte o relógio da morte . Cuide especialmente da sua massa corporal.
- Mas o Groucho…

Cadáver no Lima

Apareceu a boiar no Lima o cadáver de um homem que viria a ser identificado como João Maria da Purificação Silva, 65 anos, natural de Celorico de Basto e tudo indica que sem residência fixa. Não apresentava sinais de violência, e o rosto exprimia uma inusitada placidez para um morto por afogamento. Na altura da descoberta do cadáver, não se chegou a averiguar com certeza quem, de entre os curiosos espalhados pela margem do rio, terá exclamado: “Groucho?!” Alguns dos presentes apontaram um professor de Viana, mas este negou veementemente conhecer o morto. Só não explicou o que andava por ali a fazer, causando assim estranheza, visto não ser pescador nem poeta.
A Polícia Judiciária não sabe se a morte se deveu a acidente, a suicídio ou mesmo a homicídio. Esta última possibilidade emergiu depois de ter sido descoberta e despegada das costas do casaco do morto uma página manuscrita ali presa com um alfinete de ama. Ei-la:

“Esta aventura acaba aqui. Começámos muitos, depois ficámos mais, depois ficámos menos, voltámos a ser mais. Fizemos o que pudemos, e agora estamos prontos para coisa nenhuma. De qualquer modo, continuamos por aqui. Atentos, atentíssimos. Mas a blogosfera estará segura enquanto a Inês Pedrosa e a Clara Ferreira Alves estiverem fora dela. Parto confiante e descansado.”

A PJ está convencida de que João Maria da Purificação Silva, que se averiguou ter pouca instrução, não pode ter escrito isto.

Groucho in Wonderland

































- Elvis?
- Sim?
- Está ali um outro.
- Mais um?
- Sim, mais um. Também enviado pelo Greil Marcus.
- Mas já não mandaste dizer a esse gajo que a casa está cheia que nem um ovo?
- O que queres?!... Esse tipo acha-se o dono da tua vida, sobretudo a post mortem.
- E quem é este? E donde vem?
- Um Groucho. Vem da Lusolândia.
- Tocam por lá guitarra, se não me engano…
- Sim, mas não é eléctrica. E não dizem tocar mas tanger.
- E dá pra dançar, com essa guitarra tangida?
- É mais pra chorar.
- E porque vem ele para aqui? Não podia ficar por lá, numa das nossas filiais? O palácio do Variações, sei lá.
- Acho que é tipo um tanto preconceituoso para Variações. E parece que quer sair de lá, sem falta, até à meia-noite de hoje.
- A noite dos mortos-vivos, é?
- Meia década disso, parece, contando a partir da meia-noite. O Georges Romero já lá está, em rodagem contínua.
- Coitado, também é demais. Não menoscabemos o homem. Trá-lo cá então. E põe aí a vitrola a tocar. Sempre quero ver se o gajo sabe dar às ancas.
- OK, é pra já.
- Espera! Esquecia-me! Traz os burgers e os donuts. E coke. E duas linhas. E o meu fato preto com lantejoulas. Esse lusitano exilado vai ver o que é mesmo viver em Wonderland… Vamos-lhe cortar as saudades pela raiz.
- Dizem que é impossível, com aquela malta. Só dando-lhes bacalhau cozido com couves a toda a hora.
- Também diziam impossível a eleição do nosso George para a presidência, não te esqueças… Põe lá a música e traz o gajo.

Ars moriendi 1


- Repare que a morte é um problema dos vivos.
- Mas o Groucho …
- Para o morto, o mundo simplesmente desaparece.
- Mas o Groucho…
- E não me venha com fantasias sobre a imortalidade, por favor.
- Mas o Groucho…
- Isso é coisa de crianças, artimanha muito usada para esconder a irreversibilidade da morte, assim com quem diz: «O avô está no céu».
- Mas o Groucho…

EXTRA! EXTRA!

Fontes geralmente bem informadas asseguram que o Groucho — vulgo mordomo, vulgo aquela tendência marxista do mesmo nome, vulgo qualquer coisa assim — aceitou integrar a equipa da casa civil do Presidente da República, o tal cujo nome não devemos pronunciar.

Para o efeito, sujeitou-se a um processo completo — inquestionavelmente completo — de morte bloguística. Renascerá incognito nas suas novas funções.

Alento, pois, bom povo, pode ser que tudo aquilo ainda venha a ruir antes do tempo!
Ou — nem sei bem o que será melhor, quer dizer, pior — pode até acontecer que aquele cujo nome não devemos pronunciar seja inoculado de riso grouchista e a presidência entre em menoscabo.

(Ah, como é belo o paraíso visto pelas lentes de um post!)

Última piada, o menoscabo

— Consegui falar agora com o Serra sobre essa coisa de ele trabalhar na morgue. Fiquei muito impressionado...
— Ah sim? E porquê?
— Imagine que ele me disse que, à noite, depois de fotografar cadáveres, dez por noite, se senta a um canto e conversa com Deus longas horas... Que coisa, hein? Que privilégio!
— E não lhe ocorreu que ele seja um grande mentiroso?
— Mas que menoscabo é esse? Deus que sabe tudo ia passar horas a falar com um mentiroso?

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Viana do Castelo, 08 Mar (Lusa) – Acaba de nos chegar às mãos um documento, bastante revelador, respeitante ao crime do Bairro Operário ocorrido ontem em Viana do Castelo. Extraído da arca encontrada na Rodoviária, pertença do enigmático habitante do 3º andar, o texto integra um grosso envelope assinado «Gr.», que, segundo a nossa fonte, consiste unicamente em entrevistas.
A que passamos a transcrever, em rigoroso exclusivo, teve lugar em Gaza, na zona de Na-Nuseirat, no passado mês de Dezembro, com o então ministro-sombra do Hamas encarregado da pasta dos bombistas suicidas (o Sr. Omar El-Mukhtar foi entretanto indigitado como futuro Ministro dos Bombistas Suicidas). Cremos que se encontra truncada, mas o remanescente é um documento cuja importância o leitor imediatamente intuirá, razão pela qual o publicamos na íntegra.

«Inch’Allah!, digo, com um certo alívio, mal me tiram a venda, após a viagem de carro e o percurso subterrâneo no bunker em que visivelmente me encontro. Habituo os olhos à luz, ainda que eléctrica, e reconheço Omar El-Mukhtar, companheiro de outras jornadas, que avança sorridente para mim. Abraço longo e sentido. É-me oferecido um chá, sentamo-nos numas cadeiras austeras e gastas, ligo o gravador. Começamos.
- O Hamas reconheceu o mérito da sua actuação como ministro-sombra, promovendo-o a ministro do futuro governo. Há alguma curiosidade, quer na Palestina quer na comunidade internacional, sobre os efeitos que o poder venha eventualmente a ter sobre a sua actuação. Por outras palavras, o que vai mudar na sua actuação, assim que for empossado como ministro?
- Mas por que é que isso haveria de trazer alguma inflexão à minha actuação? O panorama geral mantém-se, pelo que a nossa linha de acção não pode nem deve sofrer alteração.
- Em todo o caso, os meios à sua disposição serão agora outros.
- Essa poderá ser a grande novidade, já que a falta de meios foi desde sempre a nossa grande limitação. Por isso, aliás, inflectimos tão pronunciadamente a nossa praxis no sentido da «bomba humana». Não dispondo de meios materiais, dispomos contudo de meios humanos…
- Percebo. Não se tratou tanto de uma decisão premeditada à la longue, mas de uma espécie de último recurso. Razões de força maior.
- Nem mais. É certo que, entretanto, o grande sucesso dessa estratégia levou-nos a convertê-la no nosso meio de actuação por excelência. Lançar bombistas para cima da mesa de negociações, se me faço entender…
- E como… Mas satisfaça a curiosidade do público europeu, se é que o pode fazer sem violar os segredos da vossa «inteligência». Em quantos departamentos se encontra organizado o Ministério?
- Com certeza. Somos um Ministério com paredes de vidro. Dispomos de três departamentos, coincidentes, no futuro governo, com três Secretarias de Estado. Por ordem hierárquica, a primeira é a Secretaria de Estado para a Teologia do Bombismo Suicida. Trata-se de, por meio de consulta permanente ao nosso Conselho Teológico, saber da legitimidade ou não dos ataques que nos são sugeridos pela estrutura do movimento.
- Foi-me dito que o Hamas funciona numa democracia orgânica tão perfeita que qualquer membro pode propor um alvo. É exacto?
- É exacto. Só que a proposta tem de vir acompanhada da devida documentação: mapas, descrição dos alvos, objectivos a alcançar e, naturalmente, descrição minuciosa da operação proposta. Parece complicado, e de facto exige trabalho, mas dispomos de formulários de preenchimento relativamente fácil. Ademais, criámos um gabinete de ajuda aos cidadãos menos letrados ou com dificuldades em qualquer das áreas indispensáveis a uma proposta consistente. Só depois de a proposta ser tecnicamente aceite é que sobe ao Conselho Teológico. Este, após consulta minuciosa do Livro e da sua exegese, decide. A decisão do Conselho Teológico não é passível de recurso.
- Segue-se então a Secretaria de Estado…
- … da Tecnologia Revolucionária. (Com um sorriso cúmplice:) Chamamos-lhe, entre nós, «departamento de fios e pavios…». (Riem os dois com gosto)
- Sei que é um sector famoso pelo seu conservadorismo teconológico…
- Sim, sim, só é revolucionário na sua determinação em expulsar o infiel sionista. A verdade é que, após anos de experiências, chegámos à conclusão de que as soluções low tech, para além de serem as que melhor se coadunam com as nossas limitações orçamentais, são as que melhor funcionam. Simples, curto e grosso, se me faço entender…
- Perfeitamente, perfeitamente. Passemos então à última Secretaria de Estado, que é a da…
- … Exportação de Recursos. Dado o seu crescente sucesso no mercado internacional, é a que nos permite verdadeiramente manter toda a máquina operacional a funcionar.
- Há então uma grande procura dos vossos produtos no mercado internacional?
- Não imagina! Para dizer a verdade, não conseguimos satisfazer todos os pedidos, pelo que já há uns tempos funcionamos em subcontratação, delegando contratos a outras empresas do ramo (contra uma percentagem do lucro, bem entendido). Sobretudo empresas do Egipto, da Síria, do Paquistão, do Afeganistão e da Arábia Saudita. E do Iraque, claro, neste momento o nosso maior importador.
- E que tipo de bombista é o mais requisitado no mercado?
- Mulheres, sem dúvida alguma. Passam mais facilmente despercebidas, percebe? Mas isso coloca-nos grandes problemas, pois os nossos princípios educativos não favorecem a saída das mulheres de casa. Há aqui um real conflito entre as mais-valias do mercado e o fundamento ético-jurídico da nossa sociedade, que estamos a ter dificuldade em ultrapassar. Ultimamente, começámos a usar homens disfarçados de mulheres, de modo a contornar as dificuldades de recrutamento. Mas é complicado, pois os clientes não apreciam, e baixam logo o preço, e os membros do movimento ainda apreciam menos ter de vestir-se de mulheres e falar com voz adelgaçada… Como vê, esta é uma pasta especialmente delicada e pouco invejável…
- Eu, seguramente, não lha invejo, garanto-lhe…»

OMS

Lusa/Fim

O morto, com menoscabo

— Bom dia!
— Bom dia! Faz favor…
— Eu queria… posso tratá-la por tu? Desculpe a ousadia, mas facilita muito o que lhe vou pedir…
— Claro que sim, adoro que me tratem por tu. Mas não fique já a pensar que digo isto a todos os que aqui vêm…
— Acredito… que adora e que não diz. Mas sem familiaridades, está bem? Não vá já imaginar coisas, que sou um ansioso, ou um atrevido, ou coisa assim. As mulheres abusam muito das interpretações precipitadas, saltam para cima das conclusões, como dizem os americanos. Quando não é para cima dos homens… Não quero que abuse da minha disponibilidade… e sabe que lhe noto olhos de abusadora? Não no sentido habitual, hoje corrente, mais o que no Norte chamam uma besunta. Não que… não que não sejam lindos, os olhos. Lindíssimos, aliás… olhe aqui para a luz... Isso... Com efeito, lindíssimos. E o pescoço, caramba! que belo pescoço… digno do busto, sóbrio, elegante, bem proporcionado… que bela mulher! ainda bem que possa tratá-la por tu, fica mais fácil, menos barreiras, menos distâncias, entende… posso espreitar-te para dentro do decote?
— Só se me disser o seu estado civil…
— Casmurro, Casmurro, eu sou do Casmurro…
— Ah, desculpe. Mas o que quer afinal?
— Eu? Venho identificar um cadáver, ora essa!

O menoscabo, com morto

— Vá lá, homem, não pense mais nisso, a vida continua, deixe lá o outro que morreu…
— O outro que morreu?! Que outro? Quem morreu?
— Mas… o Groucho… pensei que soubesse
— O Groucho morreu?! O nosso Groucho?!
— Claro, o nosso, se alguma vez foi nosso. O Serra foi identificá-lo na morgue.
— Na morgue? Mas você está-se a passar ou quê? O Serra trabalha na morgue há anos, anda sempre por aí a mostrar a colecção de fotos de cadáveres feios e estropiados.
— Diabo! Disso não sabia eu…
— É o que dá um gajo meter-se com gente que não conhece. Que raio de menoscabo é este?

Terapia breve

- Mas porquê?
- O diálogo. Pensando bem, a resposta mais simples é essa: o diálogo.
- Nunca tinha tido?
- Em parte, sim. Aliás, como tudo na vida: parece que é sempre em parte.
- Já está a elaborar, essa já não é uma resposta simples.
- Pois… Falar com o Groucho foi uma libertação. Não tenho outro modo de o dizer. Acha ridículo?
- Não tenho de achar, o que importa para já é o que você acha. Porque diz que seria ridículo? (pausa longa) Não pense tanto.
- Afinal de contas… Bom, afinal de contas era apenas um blog. Era apenas uma personagem. Será a vida assim tão desinteressante, que nos afeiçoemos a uma personagem a ponto de chorarmos a sua perda?
- Não sei, diga-mo você. Mas noto que faz uma distinção muito nítida entre vida e ficção.
- Pois… Mas percebe o que quero dizer.
- O que você me possa explicar é muito mais importante do que aquilo que eu possa perceber.
- Compreeendo. (pausa) Vai ser um bocado cansativo.
- A terapia é um processo de mudança e a mudança implica esforço.
- Seja. Não é que acredite muito... Mas por agora fiquemos por aqui.

Casa de férias 7 ou um crime deveras insolúvel

A acção decorre na véspera do infausto acontecimento marcado para dia 8. Nenhuma personagem está autorizada a pronunciar o nome daquele cujo nome não devemos pronunciar. Sala de estar fortemente iluminada. Mourão anda de um lado para o outro, por vezes vem à janela, respira fundo, abana levemente a cabeça, retoma a deambulação.
Som estridente da campainha. Duas vezes. Mourão vai abrir apressadamente. Entram dois homens. Não olham para Mourão nem lhe dirigem a palavra. Vão deambulando pela sala. Mourão regressa devagar, fala com um tom incrédulo e até um pouco medroso.

MOURÃO: Os senhores são quem eu penso que são?
UM: Sem dúvida.
OUTRO: Oui, Monsieur, não tenha disso a menor dúvida.
MOURÃO: Mas não é possível.
UM: Os tempos são outros. Os meios são outros. (aparte) Se bem que isto é um pouco bizarro.
OUTRO: Ora, Sr. Mourão, como pode pensar que a nossa presença aqui tenha o que quer que seja de estranho, se as circunstâncias não só a explicam como até a exigem?
MOURÃO: Mas quem os chamou? Os outros membros do clube?
UM: O caso foi-nos entregue, esse é o procedimento normal.
MOURÃO: A ambos? (dirigindo-se a Outro) A você também? Quem o contratou a si?
OUTRO: O importante agora é o caso, Sr. Mourão.
MOURÃO: Há qualquer coisa de errado... (pausa) Mas vamos lá tentar resolver isto de uma vez. (em tom decidido) Têm toda a cooperação que eu possa dar, mas ajudem-me a perceber, se é que sabem, a razão de estarem aqui. (dirigindo-se a Um) Inspector Maigret, quer ter a bondade de me dizer porquê?
MAIGRET: O crime aconteceu numa cidade de província, percebe, num bairro social... algumas pistas apontam para um crime fortuito, contendas com a vizinhança... numa palavra, vida empírica a mais, se é que me percebe.
MOURÃO: (em voz baixa) Disparate! (tom normal) Mas qual a relação entre Paris e um bairro social de uma cidade de província?
MAIGRET: O crime, Sr. Mourão. Naquele Paris os crimes eram muito classe baixa, psicologia previsível, procedimentos que...
MOURÃO: (interrompendo) Obrigado. (dirigindo-se a Outro) Sr. Hercule Poirot, quer ter a bondade?..
POIROT: Bien sur. Há também suspeitas de que o crime possa estar ligado ao clube. Um crime colectivo, são essas as suspeitas, para ser mais específico. Um crime envolvendo sem excepção toda a alta classe que passava pelo clube.
MOURÃO: Classe alta, o clube?!
POIROT: Alta classe intelectual, Sr. Mourão. Um crime intelectual perfeito. (Maigret desinteressa-se da conversa, Poirot entusiasma-se) Um crime único e perfeito: todos o mataram, incluindo o senhor, naturalmente, e afinal ninguém o matou.
MOURÃO: Não compreendo.
POIROT: Acredito que não. Mas acredite também que a sua responsabilidade é imensa. O senhor pô-lo a ler, a ver filmes, a passear, em férias… Enfim, repetindo o meu amável colega, demasiada empiria. Mas o ponto, bien sur, é que se todos o mataram, afinal ninguém o matou. Já estava morto há muito, Monsieur. Voilá.
MOURÃO: Mas então porque diz que todos o mataram? E se já estava morto, quem o matou? Ou de que morreu?
POIROT: Bien sur. (pausa; caminha até à janela) Ah, o mar…
(fica absorto, a olhar; Maigret regressa à conversa)
MAIGRET: Conhece bem as pessoas do prédio?
MOURÃO: Não.
MAIGRET: E os membros do clube?
MOURÃO: Pessoalmente, não todos.
MAIGRET: E os que conhece pessoalmente, quando os viu pela última vez?
MOURÃO: Já vai há uns tempos, ora deixe-me pensar…
MAIGRET: Um jantar, talvez?
MOURÃO: Não, acho que não…
MAIGRET: Uma amena cavaqueira regada a Barca Velha e a Mouchão 1988?
MOURÃO: Como não bebo, não dou muita…
MAIGRET: (interrompendo) Não bebe?!
MOURÃO: Quase nunca. Vinho, nunca gostei. De quando em vez, muito raramente, um licor…
MAIGRET: (em voz baixa) Era o que eu pensava. (normal) Mas então, a última vez que viu um dos membros do clube?.. Digamos, foi antes do Natal? Há mais tempo, há menos tempo?
MOURÃO: Há mais tempo, seguramente.
MAIGRET: Aí está.
MOURÃO: Aí está o quê?
MAIGRET: Não pode ter a certeza disto.
MOURÃO: Disto o quê, caramba? De que raio está você a falar?
(Maigret cala-se e acende o cachimbo. Poirot volta à conversa)
POIROT: O erro foi terem-no posto a falar, Monsieur.
MAIGRET: Porque é sabido: quando alguém começa a falar, em algum momento vai ter de calar-se. Enfim, é uma lei.
POIROT: E é muito diferente calar-se alguém que falava, ou continuar calado quem nunca falou.
(Mourão olha para ambos estupefacto, parece em transe. Maigret e Poirot falam como se não estivesse mais ninguém na sala)
MAIGRET: Deviam ter escolhido o Harpo.
POIROT: Voilá.
MAIGRET: Agora é tarde.
POIROT: Quel dommage…
MAIGRET: Acha que ele sobrevive?
POIROT: Não tem importância.
MAIGRET: Pois não, já não é connosco.
POIROT: Voilá.
(pausa)
MAIGRET: Vamos?
POIROT: Pra ?!
MAIGRET: Que ideia, claro que não! Não há lugar para nós. Completa empiria, aquilo.
POIROT: Pois, era o que me parecia. (pausa) Mas então, vamos para onde?
MAIGRET: Ora, para onde há-de ser? Vamos ter com ele.
POIROT: Claro, bien sur.
(pausa)
MAIGRET: Vamos?
POIROT: Vamos.
(não se mexem)

Visitação da Morgue

A notícia foi chegando com toda a sua violência. Tive de esperar que a brutalidade da morte fosse cedendo à lenta ternura de uma derradeira imagem do Groucho – aquela que é capaz de arrancar uma réstia de vida mesmo na morte. Para mim continua vivo neste mínimo resto de vida que todo o morto tem, nem que seja por uma última centésima de segundo. Por alguma razão ainda não de todo clara, num pequeno bilhete manuscrito que nos deixou, com poucas palavras, muito escassas mesmo, pediu expressamente ser eu o membro do Clube Casmurro a ir à Morgue tentar identificar o corpo. Veementes, são parcas as palavras do bilhete; e são também obscuras, pelo menos eram obscuras antes do meu demorado e silencioso passeio pela Morgue. Dizia-me ainda o Groucho, no pequeno bilhete, que me inspirasse em W.B., e me aproximasse do corpo presente, do corpo morto, com aquele espírito crítico com que há que observar uma obra de arte: com a mesma brandura que um canibal utilizaria para cozinhar um recém-nascido. É mais na morte que o Groucho está no meio de nós. Cumpri o pedido, fui à Morgue, foram minhas as palavras que me endereçou, vi a violência – eu! – e regresso agora com quase todas as imagens que retenho da solene e luminosa visitação. Para que os cavalheiros deste clube também comunguem.

Morgue 1



Andrés Serrano, “Gun Murder”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 2



Andrés Serrano, “Infectious Pneumonia”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 3



Andrés Serrano, “Aids Related Death”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 4



Andrés Serrano, “Bottle Murder”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 5



Andrés Serrano, “Rat Poison Suicide”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 6



Andrés Serrano, “Natural Death”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 7



Andrés Serrano, “Rat Poison Suicide II”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 8



Andrés Serrano, “Asphyxiation”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 9



Andrés Serrano, “Hacked to Death II”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 10



Andrés Serrano, “Suicide”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 11



Andrés Serrano, “Burnt to Death II”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 12



Andrés Serrano, “Knifed to Death”, The Morgue, NY, 1992.

Mensagem encontrada numa latrina

Caro Groucho


Estou certo que chego tarde. Chegamos sempre tarde, como o coelho. Eu prefiro os lémures, como sabe. Chegam sempre a tempo. São de uma lealdade infalível. Mais que isso, junto deles somos capazes de substituir toda a lógica da adição por um mero devaneio em campo de felicidade quase burguesa. Descobri isso há uns anos, e foi o que me valeu na decrepitude com planos de metadona e tudo.
Estarei certamente no Paraíso ou em Tânger, e é daqui que lhe escrevo. Compre urgentemente uma arma: afinada e polida. Não há nada tão belo e enigmático como uma arma. Só um UFO. Seja como for, não perca tempo a contemplá-la: Elas vêm aí sob a forma de um bando de Amazonas lideradas por essa mulherzinha, a Clara.
Espreite pela janela, estão do outro lado da rua, agora... Cuidado, espreite com muita cautela que de inábil é que Elas nada têm. Elas dão sempre por ela... Elimine-as o quanto antes! Faça-lhes um cut up de balas. Faça, Faça!

Bill Burroughs

Fogo-de-artifício 1

LQ – Eles andam aí!
PS – Pois andam!
FMO – Eles quem?
LQ – E você de onde saiu?
FMO – Isso é comigo?
LQ – É consigo e comigo! Olha que merda!
MP – Chá! Chá! O chá está servido!
OMS – O chá não sei, mas a chacha já está de certeza…
MP – E o que é que isso quer dizer, vamos lá a saber?
ABB – E se vem a chacha, logo vem a chalaça…
CA – Cuidado! Que vem aí a chaleira!
FMO – A chaleira ou a chalaça?
LQ – A leste nada de novo!
FMO – Isso é comigo?
LQ – É consigo e comigo! Olha que merda!

Fogo-de-artifício 2

LM – Queimei a língua!
MP – Mas eu avisei que o chá estava a escaldar.
OMS – Sr. Portela, que espécie de deixa é essa?
MP – É uma deixa a andar!
CA – Então, senhores!, o Sr. Mourão queimou a língua!
GR – Quem anda à chuva molha-se!
ABB – Quem anda à chuva molha-se, Sr. Rubim? Não misture as metáforas.
LQ – Não é metáfora nenhuma. Olhem para a cara dele!
PS – Está aflito, coitado!
FMO – Queimou as papilas todas!
OMS – Sr. Portela, por amor de Deus, queimou as papilas todas? Queimou as papilas todas?
PS – O que tem a fala do homem?
FMO – Mas foi a fala ou foi a língua?
OMS – Tudo em prol da literatura dramática!
GR – Beckett e Ibsen. Sobretudo Ibsen!
CA – Faz bem em pôr água na fervura!
ABB – Pôr água na fervura, Clara? Não queime as metáforas. Guarde-as para melhor ocasião. [Puxa do caderninho de retórica e toma notas afanosas. Hipálage, aponta, com a ponta da língua de fora e o nariz em cima da folha.]
LQ – Não é metáfora nenhuma. Olhem para a cara dele!
PS – Está aflito, coitado!
FMO – Queimou as pupilas todas!
PS – Os olhos também?
MP – Os olhos não, porra! Via-se bem que era uma gralha, Sr. Oliveira!
FMO – Acha que fiz de propósito?
OMS – Tudo em prol da literatura dramática!

Fogo-de-artifício 3

LM – Queimei a língua!
MP – Outra vez?
LM – Isso pergunto eu!
MP – E como quer que eu saiba? Acaso moro na sua boca?
LM – Se soubesse que isto era assim, tinha ficado no multiplex!
LQ – Qual é o filme hoje, man?
FMO – Acho que é Estranhos no Telhado.
PS – Não, esse já foi. Hoje é Truz-truz, quem é?
GR – Truz-truz, quem é? ? Nunca ouvi falar.
OMS – E quem ouviu?
CA – Então, senhores!, o Sr. Mourão queimou a língua!
FMO – Bom, agora é tarde demais.
PS – A história segue o seu curso.
CA – O seu curso melancólico!
OMS – O anjo novo de Klee!
MP – Essa agora escapou-me!
ABB – E essa também!
PS – Tudo escapa!
FMO – Tubo escape!
LQ – Boa, Sr. Oliveira!, começa a entrar no espírito da coisa.
GR – Faço minhas as suas palavras!
PS – E eu as suas!
MP – E eu as minhas!
OMS – E quem faz suas as minhas?
CA – Eu é que não!
ABB – Usurpador-usurpado!
LQ – Perdão, obsevador-observado!
FMO – E isso significa o quê, hein?
LQ – Hibernador-hibernado!
FMO – E isso significa o quê, hein? Hein?
MP – O chá está na chávena!

Fogo-de-artifício 4

ABB – Estamos à sua espera!
LM – Nem pensem!
ABB – Mas acha assim tão mau?
LM – Experimente você!
ABB – Queimei a língua!
GR – Também?
ABB – Estava só a ensaiar.
CA – Mas eu avisei que estava a escaldar.
MP – Espere, que essa frase é minha.
LQ – Inda estão nisso?
ABB – Já expliquei que estava só a ensaiar.
OMS – Claro, um ensaísta ensaia.
PS – Um nick bloguista bloga.
FMO – Um street artist rua.
LQ – Um body artist bora lá.
CA – Bloga, rua, bora lá.
OMS – …da-se.
GR – Um actor actua.
LM – Um casmurro casmurra!
MP – Sr. Mourão, o que é que isso significa?
OMS – Segurem-me! Segurem-me!
CA – O que é que lhe deu?
GR – O mesmo que a mim!
CA – O que foi, Sr. Serra?
PS – Querem a morte do autor, parece-me.
CA – Mas isso seria matar o morto!
LQ – Morto ou não, caguei!, violência ritual nunca fez mal a ninguém.
FMO – Calma!
MP – Calma digo eu!
LM – E eu! que estava agora tão bem no multiplex!

Fogo-de-artifício 5

LQ (baloiça, suspenso do candelabro) – Tá-se bem!
MP (surpreendido) – O que faz aí em cima?
OMS (sarcástico) — Se calhar a didascália não lhe saiu das mãos?
ABB (conciliador) – Olhe que ele até a costuma dispensar.
FMO (acabado de chegar) – Dispensar quem?
GR (visivelmente irritado) – Talvez dispense a didascália, mas trocadilhos é um ver se te avias!
CA (olhando para o tecto) – Sr. Quintais, pendurado outra vez!
LQ (irónico) – Bem o pode dizer!
MP (atrapalhado) – O que é que eu hei-de fazer? Os Senhores e a Senhora não me dão tempo!
PS (entrando sem se fazer notar) – Tire-o dali!
LM (exortativo) – Realmente, isso não se faz! E já há precedente.
GR (escarnecedor) – A redundância é a mãe da invenção.
FMO (espantado) – Pensei que fosse a necessidade!
CA (impaciente) – Ora, Sr. Oliveira!
MP (insistente) – Quando cheguei ele já lá estava. Eu nem tinha sequer deitado as mãos ao papel.
OMS (mordaz) – Deitá-las ao papel, nem eu diria melhor — agora à obra, isso é que já não está nas suas mãos.

Fogo-de-artifício 6

ABB (pensativo) – Anáforas e epanáforas!
PS (intrigado) – Anáforas e epanáforas?
ABB (explicativo) – Sim, sim. É o truque dele.
OMS (indignado) - Truque? Isso é dar crédito demais à criatura. Ele sabe lá o que faz!
FMO (sempre oportuno) – De quem é que estão a falar?
LQ (baloiça, suspenso do candelabro) – Tá-se bem!
LM (fazendo avançar a acção) – E o que fazemos com aquele lá em cima?
PS (v