18 dezembro 2005

diálogo offshore, 1


















- Sabe, Groucho, a desregulação e a mudança tecnológica abriram novos mercados.
- Desculpe-me, mas não concordo com essas palavras.
- Não concorda?
- Sim, não me ponha a economia na boca. Deixe-me ser eu a escolher as palavras.
- Nem pensar nisso. São elas que nos escolhem, como muito bem sabe.
- Isso é o que eu chamo um truque baixo, um golpe dramático.
- Também podemos começar por aí.
- Por aí?
- Sim, por aí. Pelo golpe, pelo truque. As suas palavras ainda servem melhor do que as minhas.
- Explique-se, explique-se!
- É difícil de entender. Mas comecemos por uma ilha, uma ilha qualquer.
- Uma ilha?
- Sim, um lugar onde o velho casario e as lojas tradicionais tenham dado lugar a arranha-céus de escritórios e parques de estacionamento. Onde os bancos internacionais e as empresas de contabilidade se aliem para minimizarem os impostos que as companhias multinacionais têm de pagar.
- Como assim?
- Por exemplo, transferindo os preços dos bens de forma a que baldes de plástico importados da República Checa para os Estados Unidos custem 972 dólares cada um, e lança-rockets exportados dos Estados Unidos para Israel custem 52 dólares cada.
- Interessante…
- Ou, no caso das que não são multinacionais, fazê-lo através de um agente intermediário no paraíso fiscal, que deposita parte dessa transferência de preço na conta offshore do vendedor ou do comprador. Um estratagema chamado “refacturação".
- E então?