09 julho 2005

Síndrome da FNAC

«Vertigem dos livros, combinada
com agorafobia e claustrofobia, que
- por visão simultânea de tantos universos
históricos ou íntimos, provisoriamente comprimidos
e quase a estalar num outro caos -
se dá nalgumas macrolivrarias,
bibliotecas e feiras. Apenas
afecta os amantes dos livros.
Revela um fundo de misantropia.
É dolência recente, vinculada
ao excesso de cinzento na escrita.
O nome foi-lhe dado por um jovem
e ignoto poeta. Não se lhe encontrou
tratamento».
Mistério é que o poema
enuncie por igual o que perdura
e a insignificante angústia:
foi
na Fnac de Montparnasse, ao lado
do ginásio. E não é certo que não tenha
solução. Saí para a rue de Rennes,
vi os carros, o prisma da torre,
as suas proporções áureas. Penetrei
no ginásio (na sua etimologia,
porque, dizem, também a roupa é texto),
disposto a exercitar versos de Píndaro,
e em trégua de fadigas, fulgor
de juventude ainda,
como um auriga de potência e mãos.
Enquanto me despia, recobrei
gradualmente, como num tratado
breve e antigo, a serenidade.
Era outra vez a minha pele, limite único
e simples com o mundo, a minha memória
de animal que caminha, a minha pureza.
Era outra vez um homem, este projecto
verdadeiro que nunca estará escrito.

O vestiário fervilhava de corpos poderosos.


Juan Antonio González Iglesias, «Síndrome da FNAC», in Esto es mi cuerpo, trad. de Osvaldo M. Silvestre