06 julho 2005

Formas simples

para Susana González Marín

naquele momento único de revelação percebera simultaneamente todos os detalhes da magnificência do quarto, os intrincados segmentos do solo de mármore; as seis colunas de mármore jaspeado com os seus capitéis de elegante relevo; a riqueza do tecto pintado, um panorama de Londres no século XVIII; pontes, minaretes, torres, casas e navios de altos mastros, tudo unificado pelos confins azuis do rio, a elegante escadaria dupla; a balaustrada que descia em curva até terminar en bronzes de rapazes risonhos montados em delfins
P. D. James

Explicam os teóricos
que uma conversa
é a forma singela, por exemplo,
do diálogo platónico. Que uma
carta é a forma simples da epístola
literária, e qualquer
dos relatos quotidianos é
a forma elementar do romance.
Eu afirmo que este livro
encadernado, com capa
mate e acariciável, em que vejo
um palácio italiano junto ao Tamisa,
o rio de poderosas marés a que T.S. Eliot chamou
um poderoso deus sombrio,
no qual a beleza
se torna acção e esta, beleza,
este livro ou este palácio ou este rio
que contém o meu mundo porque contém o mundo
(certos fragmentos do Eclesiastes,
ou uma meditação de Marco Aurélio:
todas as coisas do corpo são como um rio,
e as coisas da alma, como um sonho e uma bruma
),
eu, que sou um poeta, não um teórico,
afirmo que este livro,
que abre com um Prólogo ao
assassinato
, é uma forma simples
da felicidade.

Juan Antonio González Iglesias, «Formas simples», in Esto es mi cuerpo, trad. de Osvaldo M. Silvestre