10 julho 2005

Consubstâncias

— Afinal, o arrastão de Carcavelos teve origem numa falha de linguagem. Li ontem que o comandante da PSP de Lisboa reconheceu, num depoimento à jornalista Diana Andringa, que a escolha imprópria do termo «arrastão» resultou da inépcia dum agente, que «não soube consubstanciar exactamente o que aconteceu».
— Coitado do agente, leva com as culpas e ainda passa por estúpido. Queria ver o comandante, ali na praia, em dia feriado, com imenso calor, a consubstanciar quinhentas pessoas… mesmo sendo delinquentes, é obra difícil. Não me ocorre nada de semelhante na história da humanidade, salvo no cinema, claro.
— Desculpa, não estás a ver bem a coisa. O agente safou-se muito bem, foi perfeitamente capaz de dar conta do caso: consubstanciou quinhentos delinquentes em arrastão. Não estás a ver? A montoeira de meliantes, a turba devastadora, a catervagem em movimento, tudo isso, que é múltiplo, consubstanciado numa única entidade…
— Quererás tu dizer que no tal arrastão se consubstanciaram as aspirações da polícia — ou do polícia — e as habilidades dos meliantes das praias? Mas então, em que se consubstancia o papel do comandante da PSP? Já não percebo nada, confundes-me…
— Estou que tu é que confundes. Deixa. Falta o melhor: o dito comandante acabou por desdizer o que disse…
— Ah, espera, a entrevista afinal não consubstanciava exactamente o que ele pensa…
— Pior, pior… o tal agente do princípio consubstanciou-se comandante e fez-se passar por ele para a entrevista. O que consubstancia um crime terrível. Está tramado.
— Isso é verdade, ou fazes piada?
— Consubstancias a diferença?