18 junho 2005

Árvores

- Gosta de árvores, Groucho?
- Que pergunta, senhor! O que significa para si «gostar de árvores»?
- Judiciosa resposta, Groucho. «Gostar de árvores», de facto, é expressão que a meu ver não se coaduna com encantamentos de fim-de-semana, como aqueles que levam as famílias ao «verde» pelos sábados de manhã. É coisa mais exigente, e pressupõe acompanhamento sazonal e próximo (e já nem falo de plantá-las e tratá-las, gesto que a vida urbana nos impossibilita quase sempre). Refiro-me a visitar as mesmas árvores ao longo das estações, interrogar a sua presença muda uma vez por outra (como certas árvores frondosas no largo da Sé Nova, que podemos cumprimentar ao longe mesmo quando trabalhamos – no meu caso, na Faculdade de Letras de Coimbra). Pressentir nelas o enigma do inumano, a serenidade com que simplesmente estão, e por isso «não são para a morte». Gostou desta?
- Confesso que perfilho uma visão mais humanizada da Natureza, senhor.
- Pois, é esse seu lado vegano…
- Não me diga que depois das ironias do Sr. Baptista terei de sofrer as suas, senhor?!
- E porquê? Não se esqueça de que sou um quase camarada seu, pois também há uns anos me rendi ao vegetarianismo. A diferença é que, por razões de socialização, por vezes recorro ao peixe, e não abandonei o leite de vaca ou os ovos. Em matéria de alimentação o Groucho é, digamos, um membro do BE, enquanto eu me contento com o PC…
- Dizem-me que de facto há muitos veganos no BE.
- Acredito, Groucho, acredito. O BE vai sempre no banco da frente, como sabe. Em todo o caso, e regressando ao início, posso depreender então que gosta de árvores.
- A pergunta surpreende-me até pelo seu cunho retórico, senhor. Como não gostaria um vegano de toda a natureza?
- Essa agora, Groucho! Pois não é exactamente o oposto?
- Como assim?
- É simples: na medida em que não come animais, por razões éticas muito válidas, o vegano tem de comer outro tipo de criaturas da Natureza. Ou quereria o Groucho passar de todo sem comer?
- Não me diga que vai agora pôr no mesmo plano as alfaces e as vacas, senhor?
- Não, não vou. Mas a diferença reside no grau de consciência de cada um desses dois seres, e não no facto de um ser um ser vivo e o outro não. Ou estou errado?
- Pois, mas…
- É que já me ocorreu ler defesas do vegetarianismo que esquecem que também os vegetarianos comem «seres vivos». Claro que isto poderia levar-nos a uma fascinante digressão sobre a discriminação dos graus de consciência respectivos de vacas, mexilhões, alfaces, algas – ou árvores, felizmente incomestíveis. Peter Singer, como sabe, tem escrito notavelmente sobre o assunto e sobre as diferenças entre consciência e autoconsciência. É claro que é muito menos traumático colher uma alface do que matar uma vaca, que guincha horrivelmente e deita sangue por todos os lados. Isso não obsta porém a que vegetarianos ou carnívoros comam, todos eles, seres vivos – embora uns disponham de consciência, outros de autoconsciência e outros de nada disso.
- Exacto, senhor, mas, nos próprios termos de Singer, as alfaces não podem ser consideradas seres conscientes.
- Pois não. Mas também não os embriões humanos, Groucho… Em todo o caso, não era sobre isso que lhe queria falar. Mas creio que o chamam. Continuamos daqui a pouco.