01 novembro 2005

Importa-se de repetir? (II)

- Não sei, senhor. Pareceu-me injusto decretá-lo extinto em 1976. Afinal de contas, depois disso os Hospitais da Universidade de Coimbra salvaram-no in extremis e daí resultou a Senhora das Tempestades, com todo aquele cortejo de prémios e reconhecimento crítico.
- De facto, e muito ao invés do que sugere o Pulido Valente, a mim parece-me vivíssimo da costa. Também, nestes 30 anos de parlamento, não dei por que se afadigasse em excesso.
- Sabe que o parlamento é ingrato, desse ponto de vista, pois há muito trabalho de gabinete que nunca chega à praça pública. Horas perdidas em dossiês, estudos, debates à porta fechada, enfim, uma vida dura.
- Vejo que o Groucho decorou bem a cartilha da propaganda da nossa Assembleia da República. Mas voltando ao assunto que propõe, olhe que não sei se essa tal Senhora das Tempestades não corrobora, e radicaliza mesmo, o juízo do Pulido Valente.
- E como, senhor?
- Bom, o Pulido Valente decreta-o póstumo a partir de 76, não é? Mas lendo essa Senhora, a gente facilmente se apercebe, como ainda há pouco dizia a Clara Antunes em tom embevecido, que um espectro percorre todo aquele texto: o de Antero. E a coisa é de tal forma que bem se pode dizer que aquilo é um livro de poesia do século XIX. Mais ainda, meu caro: na medida em que essa obra, que a crítica decretou cimeira no corpus do poeta, condensa a poética e mundividência do autor, ela constitui-se fatalmente num vantage point que ilumina retroactivamente o dito corpus. E sabe o que acontece, quando de facto ligamos esse holofote retroactivo?
- Diga, diga…
- Ora, percebemos então que não é só esse livro que é poesia do século XIX no final do século XX, mas que é toda a obra de Alegre que é típica poesia oitocentista (convinha aqui ler o Ortega da Desumanização da Arte para perceber as incongruências de se ser «um poeta do século XIX no século XX» e como isso, só por si, o impede de ser o «grande poeta» que certas almas, a começar por Mário Soares, nele vêem - ou viam?). Antero vintage, entre as tonitruâncias das Odes Modernas e a metafísica tão gabada dos sonetos. Metafísica que, com franqueza, existe à custa dos mesmos sonetos. No nosso neo-oitocentista a coisa é diferente, pois ele usa a forma anteriana para exprimir uma ausência de ideias que o aproxima mais da versão crítica que muitos (os anterianos) apresentam do Eça: muita forma, zero de ideias. Neste caso, muita rima, muita métrica, muitas vogais ribombantes, e muita proclamação fátua (e sempre enfatuada, claro). Letras para canções, de facto. Mas muito longe da qualidade das do Leonard Cohen, por exemplo. Ou, em português, do Tom Zé ou do Caetano Veloso. Ou mesmo de algumas de Zeca Afonso.
- Mas então como explica o triunfo crítico desta poesia nas últimas décadas?
- Olhe, por um lado porque a poesia de Alegre faz o pleno ideológico: é historicamente património da esquerda, mas na medida em que andou décadas a fazer revisão da epopeia camoniana e a poetar sobre o império, num interminável e armadilhado trabalho de luto, agrada também à direita. Depois, porque não há que alimentar ilusões sobre a crítica: assim como os poetas fazem coisas muito diferentes sob a rubrica de «poesia», também os críticos se dividem entre os que gostam de poesia cívica, amorosa, metafísica, etc. Mas, antes mesmo dessa repartição departamental, convém não esquecer que o terramoto moderno deixou muita gente, críticos incluídos, desamparados. Melhor: sem pé, porque entre outras coisas, como dizia o Professor Mallarmé, «On a touché au vers». Ora, se há coisa que Alegre não faz é «tocar no verso».
- Outros o puseram a tocar, com acompanhamento à guitarra…
- Exacto. Coisa muito tonal, «mundana», autopreservada e satisfeita, como se o século XX (o Pessoa, por exemplo) não tivesse existido, ou pudesse ser substituído pelo rei Dinis. Ora, meu caro Groucho, não se iluda: assim como há tão pouca gente que prefira a música moderna à dos séculos XVIII ou XIX, também há muito crítico saudoso do tempo em que a poesia «dizia coisas» de alma para alma - a começar pelo Joaquim Manuel Magalhães, como sabe. Há muita gente que ainda ressente a perda da praça da canção em que a poesia funcionou até… olhe, até ao Antero. Que ainda pra mais é também património da esquerda.
- Percebo, senhor. Ocorreu-me agora que a gesta presidencial do nosso poeta se podia resumir toda num verso de Antero, sabe?
- E qual?
- Óbvio: «Sonho que sou um cavaleiro andante», etc.
- Diria mesmo mais, meu caro Dupont: óbvio!