02 setembro 2005

Clarice, cinco


O ERUDITO
Ele é agora gerente de uma loja de sapatos. Não porque escolheu, mas porque foi o que lhe restou. Perguntava-se sempre: onde está o meu erro? O erro em relação a seu destino, queria ele dizer. Não há grandes motivos a procurar no facto de alguém ser gerente de uma loja de sapatos. Mas uma vez que ele mesmo se pergunta e estende os sapatos como se não pertencesse a este mundo — o motivo de indagação aparece. Por que realmente? Fora, por exemplo, o melhor aluno de História e até por Arqueologia se interessava. Mas o que parecia lhe faltar era cultura histórica ou arqueológica, ele tinha apenas a erudição, faltava-lhe a compreensão íntima de que fora neste mundo e com esses mesmos homens que haviam sucedido os factos, que fora na terra em que ele pisava que houvera um dia habitantes e que os peixes que se haviam transformado em anfíbios eram aqueles mesmos que ele comia. E até hoje é como um erudito que ele estende os sapatos — como se não fosse em contacto com esta áspera terra que as solas se gastam.