10 julho 2005

O fim da dialéctica (VI)

A escrava compreendeu. Levantando o gorila morto atado ao traficante, arrastámos os dois corpos até à termiteira. A mulher lançou uns gritos guturais, o pequeno chimpanzé veio a correr, agarrou-se à ilharga dela e deu-lhe a mão.
Ela, rindo, com os lábios entreabertos, contemplava a fervorosa fenda da termiteira. Milhares e milhares de enfurecidas formigas cobriam os dois fardos com um lençol cinzento. A jilaba de Farjalla e o corpo peludo do gorila foram revestidos por una crosta movediça e acinzentada que se ajustava constantemente às crescentes protuberâncias dos corpos.
A negra e o filho adoptivo observavam aquele final.
Peguei na garrafa de whisky que tinha ficado debaixo do assento do camião e disse à escrava:
— É melhor que te vás embora e não voltes.
A mulher, dando apressadamente a mão ao macaco, dirigiu-se para o bosque. Vi-os pela última vez quando cruzavam o limite da muralha vegetal. O pequeno chimpanzé, de mãos dadas com ela, voltava a cabeça olhando-me como um rapazinho ressentido. E eu, oculto agora atrás de uns cactos, esperava o momento de subir para o cavalo que tinha escondido na noite anterior. Tula afastou uns ramos e submergiu-se no verde. Montei a cavalo e regressei à feitoria para forjar o meu álibi, enquanto ali ficou, ao sol, Farjala Bill Alí. As formigas comiam-no vivo.


Roberto Arlt, de El criador de Gorilas, 1941.
[Trad. de PS]