13 julho 2005

O cânone e o hipermercado

― …não vale a pena essa conversa do cânone se é para pôr Landor ou Housman no mesmo pé que Góngora ou S. João da Cruz, com um sentido das proporções equiparável ao de quem puxasse Domingos Bontempo ao plano de Bach ou Marsalis às alturas de Ellington. Então mais vale desistir do tal cânone, mais vale uma pessoa deliciar-se com a anarquia da cultura pop e fazer como se o grande sinistro, o incêndio da biblioteca já tivesse ocorrido, sob a forma desse gigantesco hipermercado em que tudo equivale a tudo, everything goes and nothing matters e o único critério imperante é o da tabela de vendas.
― Mas não é o seu caso, aposto. O senhor prefere o cânone, em qual…
― Receio que não me compreenda, Groucho. O que digo não é que haja qualquer opção a fazer entre o hipermercado e o cânone…
― Não há?
― Não. Se o hipermercado já é a forma de se repetir o incêndio da biblioteca, então o cânone nasce como que naturalmente do meio das chamas enquanto tentativa (mais ou menos desesperada, consoante o temperamento) de as extinguir. O cânone precisa do hipermercado, o hipermercado segrega cânones no acto de os ignorar. E assim torna-se patético que uma pessoa se ponha para aí a gritar «Shakespeare! Shakespeare!» como se Shakespeare não dispusesse dos mais potentes detectores de incêndio e do seu próprio poder de passear no hipermercado e sair de lá intacto. Intacto quer dizer: capaz de exigir ao cânone que seja levado até às últimas consequências.
― E que consequências são essas?
― Terríveis. Uma extrema redução. Uma razia. Um autor ou um livro posto no centro do cânone destrói a própria ideia de cânone. Não centra, descentra. Por isso é que o cânone se deixa ver de vários lados, por exemplo do lado do D. Quixote ou do lado das Fleurs du Mal ou do lado das Confissões de Rousseau ou do lado de Homero ou do lado do Gargântua ou do lado do Processo ou do lado de Montaigne ou do lado de El Aleph ou do lado de Hölderlin ou do lado da Torah ou do lado das Illuminations, de muitos lados, de todos os lados! Qualquer cânone é sempre uma figura caleidoscópica. E no centro nada tem além dum lugar vazio disponível para múltiplas e sucessivas ocupações. Postular um cânone é necessariamente inventá-lo e a invenção mostra que, fora da invenção, o cânone não tem existência. Percebe?
― Bem…
― Sabe que mais, Groucho? O postulado do cânone é catastrófico de cabo a rabo: não passa de uma variação à volta da ideia da literatura como arte que vive enamorada do seu próprio fim.
― Não acompanho. Eu julgava que o cânone era o resultado das estreitas ligações da literatura com a escola, com a instituição universitária, enfim, com a ordem do saber. O senhor, porém, não…
― E quem lhe diz a si, Groucho, que a escola e a universidade não são, também, instituições que vivem enamoradas do seu próprio fim?
― O senhor delira, perdão, mas o senhor de-li-ra! (Foge espavorido.)