04 julho 2005

O Blindfold Test do Groucho

- Eu não devia sujeitar-me a isto. Estas coisas são em extremo aleatórias e propícias a arruinar uma reputação…
- Ora, uma pessoa com a sua competência, seguramente não receia este testezinho…
- Bom, vamos lá então. Se tem de ser, arranca-se já o dente.
- Aqui está a fotocópia do poema, senhor:

História Natural

Cobras cegas são notívagas.
O orangotango é profundamente solitário.
Macacos também preferem o isolamento.
Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
Andorinhas copulam no voo.
O mundo não é o que pensamos.

- Tenho então de adivinhar quem é o autor? E nem uma ajudinha, suponho?
- Nada de nada.
- Só pode ser do Herberto Helder. Inconsciente animal, apelo primacial, o opaco mundo (mudo). Acertei?
- Longe disso. Com franqueza, senhor, não acha o poema demasiado curto para o fôlego do Herberto?
- Também me ocorreu, mas o resto parecia compensar e muito… Então, se não é do Herberto… é do Tolentino Mendonça. Isolamento, noite, o místico. E curtinho, como ele gosta.
- Frio, frio…
- Ora bolas, isto está a correr mal. Pensava que era mais fácil. Não me pode dar uma ajudinha? A gente não diz nada aos outros casmurros…
- Tentativa de suborno? Toma-me por um homem do mundo da bola?
- Pelo amor de Deus, Groucho! Temos de ser uns para os outros… Mas enfim, não quero dar azo a que monte agora o seu circo moral. Tento de novo. Tudo visto, podia ser do Quintais. Ele tem um razoável bestiário e aquela inclinação pelo contrabando metafísico…
- Como o senhor facilmente perceberá, o óbvio conflito de interesses impedir-me-ia sempre de incluir no teste um texto de um membro do clube!
- Pronto, pronto, não se amofine. Adiante. Ora… Como é que me escapou? Só pode ser da Adília Lopes: bicharada, deflação lírica, o amor substituído pela cópula, solidão, Deus abscôndito, enfim, desinvestimento formal.
- Não está mal lido, se me permite, mas ainda não foi desta.
- Estou a ficar sem munições, meu caro. O Manuel António Pina? Mas ele, em matéria animal, fica-se pelos gatos ou pelos cães. O Franco Alexandre é mais aracnídeos… O Joaquim Manuel Magalhães, esse, prefere ervas, arbustos e plantas de nome raro, só ao alcance de um rural ou de um dicionário. E em animais não vai além da passarada. Ná, desisto. Diga lá de quem é o raio do poema.
- Raio de poema é que não! Notável poema, embora curto. De Carlos Drummond de Andrade, no livro Corpo, de 1984.
- Drummond? Mas então agora os brasileiros também entram ao barulho?
- Uma apologia do nacionalismo para justificar uma fraca performance? Então e «a minha pátria é a língua portuguesa»?
- Uma frase demagógica proferida por um obscuro ajudante de guarda-livros, nada mais. Já não basta este país de poetas e ainda tenho de levar em cima com a «lusofonia»? É batota, Groucho, BATOTA! Assim, não brinco mais. Vá chatear o Sr. Oliveira, o Sr. Serra, todos os casmurros restantes. Brincadeira fútil, além do mais, que confunde autoria com literatura!
- O mundo não é o que desejamos, pois não, senhor?