14 julho 2005

O Blindfold Test de Groucho

- Nem sei como agradecer-lhe, Sr. Oliveira. Por este andar, um dia destes tenho de pôr uma velinha à virgem de cada vez que um membro deste clube aceitar submeter-se ao teste.
- Não exageremos, Groucho. Mesmo que isto corra mal, confio em que a minha reputação seja já suficientemente sólida para lhe sobreviver, mais ou menos intacta.
- Sem dúvida, senhor. Bom, então se já está instalado, comecemos. Aqui tem o poema. Queira lê-lo, se faz o favor.
- Favor nenhum. Deixe cá ver.


GLOSA AO POEMA DE PASSAREM AVES

À memória de Jorge de Sena


Em bando passam aves
e eu voando vou com elas

Mas assim que aterro e quebro as asas
Recolho-me à sombra, que não das aves,
Das aves não
Mas da memória que fica delas

Passam lestas chilreando leves
E minh’alma, ninfa triste em seu novelo,
Fica só daqui a vê-lo
O bando não
Mas o que fica de passarem aves.


- O Groucho, de facto, não brinca em serviço!
- Então porquê, senhor?
- Sempre tão inocente… Ora, por que é que havia de ser? Isto é uma armadilha a raiar a indecência, como o meu caro amigo (mas com amigos assim quem é que precisa de inimigos?) está fartinho de saber.
- Não quererá o Sr. Oliveira fazer o obséquio de dissipar a opacidade das suas palavras?
- Isso é que é falar, gaita… O senhor é de facto a criatura mais perversa que já me foi dado conhecer. O que, neste clube, diga-se, é um título de conquista árdua. Deixemo-nos de tretas: o senhor está farto de saber que, desde que o Jorge de Sena glosou «O sol é grande…», de Sá de Miranda, já meio mundo e um par de botas contribuiu para essa indústria. Basta, para o perceber, consultar o livro da Marcia Arruda Franco, Sá de Miranda. Um Poeta no Século XX. Que nem esgota o assunto. Qualquer dia, ela vai ter de escrever um suplemento com outro tanto por via da passarada remanescente.
- Os desafios aguçam o intelecto, Sr. Oliveira…
- Versão eufemística, e cínica, do vernáculo «f… o juízo», não é? E agora queria o senhor que também eu contribuísse para a glosa da glosa da glosa da glosa da glosa da glosa da glosa da glosa da glosa da glosa dos piu-pius? A glosa poética da glosa poética e a glosa crítica da glosa poética, ad infinitum… Haja paciência para o aturar, caro senhor!
- Mau, estou a ver que desta vez não saímos sequer dos prolegómenos!
- Por mim, passava-se já aos paralipómenos… Ou à coda… Ou ao Post Scriptum
- Vá lá, Sr. Oliveira, encore un effort!
- Eu sou de Português-Alemão, meu caro. Prefiro salsichas e cerveja.
- Vá lá…
- Olhe, uma coisa lhe garanto: do Vasco Graça Moura não é, que esse conheço eu bem. Fora esse, acho que pode ser basicamente de toda a gente. Até mesmo do Manuel Alegre. Ou do poeta Letria. Ou da Adília Lopes. Ou do Pedro Mexia. Ou da Natércia Freire. Ou do Pedro Homem de Melo. Por outro lado, do Pessoa é que não pode ser, que era ainda demasiado cedo para a incubação deste vírus. Nem do Régio, que não ia por aí. Nem do Herberto, que é mais de menstruação, ou selos… Nem do Nava, que era mais de entranhas… Quanto aos novos, se querem ultrapassar os pródromos da consagração, sugiro-lhes vivamente que suem e façam passar aves pelos versos, sob risco de ficarem na rubrica das «eternas esperanças».
- E eu que, na minha veneração pelo saber dos literatos das Faculdades, supunha que os profs de literatura tinham os textos todos na cabeça! Este teste arrisca-se a ser um trauma duradouro para mim. Mais um camião de ilusões perdidas…
- Isso é o título de um romance, não é?
- De muitos, Sr. Oliveira, de muitos. De quase todos, para dizer a verdade.
- Lá vamos nós de novo! Vejo que o mundo, para si, existe sempre sub specie serial: replicações, proliferação, aves que passam no céu da poesia provindas do céu do cibermundo mirandino. Mais um pouco, se o poema que me deu não fosse em português e sim em inglês, ainda o diria da autoria do William Gibson. Por outro lado, como a coisa (The Thing, do filme do Carpenter, lembra-se? Não? Francamente…) já se replicou até ao pesadelo, talvez precisássemos aqui de uma Sigourney Weaver, oferecendo, intrépida e pura (e boa…), corpo e alma para deter o vírus chamado «De passarem aves». Dava até um género novo: «Literary Academic Cyberpunk Poetry Fiction». Ou então, mais prosaicamente, do que precisávamos era de um bom antivírus que conseguisse exterminar este trojan horse, aliás pardau.
- Muito típico, muito típico…
- De quê, senhor Groucho?
- Da forma como neste clube se disfarçam insuficiências por meio do show off intelectual. Ou pseudo-intelectual…
- Não vou cometer a deselegância de usar, a respeito desse seu infeliz comentário, as suas mesmas palavras, mas lá que são muito típicas…
- Enfim, cortemos cerce esta troca de piropos. O Sr. Oliveira, se bem percebo, abdica de tentar responder ao teste.
- Abdico, Groucho, abdico. Mas exijo que fique registado em acta o meu protesto contra a safadeza representada pela escolha de mais uma revoada de aves minhotas em verso.
- Muito bem, nada tenho a opor às especiosidades do direito administrativo. Em todo o caso, informo-o de que o poema é de Arménio Vieira, poeta cabo-verdiano. Espero que me poupe a mais um protesto anti-lusófono, como nos casos do Sr. Silvestre e do Sr. Serra.
- Não chegava lá, confesso. São ilhas, e ficam longe… Mas se é de Cabo Verde, está perdoado. Com uma condição, contudo.
- Diga.
- Que me traga um cálice de grogue. O Sr. Silvestre – com a ajuda decisiva do Sr. Névada, agora pelas colónias açorianas - já me viciou nessa pólvora.
- É pra já, é pra já.