12 julho 2005

O Blindfold Test de Groucho

- Bom, Groucho, vamos lá a isto, que estou em pulgas!
- Óptimo, Sr. Rubim, óptimo. Receava que após os dois semi-falhanços com os Srs. Silvestre e Serra, mais ninguém quisesse fazer o teste.
- Ora, ora. Eu nem me importava de o ter feito antes. Sempre achei piada a estes testes às cegas em que estamos condenados a perder, na melhor das hipóteses, por poucos.
- Então, se se quiser instalar… Muito bem, eis o poema. Faça o obséquio de ler, senhor.

MORFEU, PÕE AQUI O PÉ

Dizes tu, Morfeu, num discurso pontilhado
de prosápia metafísica, que a poesia deve ser
expressão do indizível, indutora de estranhezas
várias, ilegível, eriçada de espinhos contra o gosto
da manada. Aflige-te o contágio sentimental
que vês irromper em lugares (doloridos, acredita)
de alguma outra escrita, brandes contra eles
a clava carunchosa da morte do autor,
amparada a velharias de marca Paul de Man.
Compreendo que te excitem Mallarmés e outros
deuses obscuros, desses que justificam
a presença de sibilas, de mediadores, de traficantes,
em suma, do sangue alheio. A simplicidade
da nova cozinha poética prescinde, Morfeu, já sei,
dos teóricos atoalhados que sabes bordar.
Estraga-te o negócio. Daí as directivas
que pretendes emitir (como se a realidade
obedecesse aos teus esconjuros). Água cristalina,
vinho de barril, entrecosto grelhado, não é fácil
fazer caixa com artigos tão humildes.
Paciência, Morfeu, a culpa não é nossa
se a gastronomia francesa nos foi proibida
por Zbigniew Herbert, Tadeusz Rozewicz,
Aleksander Wat e outros nutricionistas
de que a França ouvirá falar quando puser de lado
a théorie littéraire e compreender a queda, o susto,
o nojo do mundo em que temos mergulhada
esta rodilha sebenta a que povos mais felizes
chamavam a alma. Há náusea, Morfeu (não reparaste?).
a correr nos versos do que chamas banal, a guerra
do Peloponeso ainda não terminou, eu próprio
pisei ontem um pudim de merda que algum cão
mais inclinado à posição filosófica
depositou no passeio. Tudo isto, Morfeu,
acredita, dá-me cólicas na voz.
E queres tu ler poemas. Por que não os escreves?

- [Levanta-se lentamente enquanto amarrota a folha com o poema] O senhor Groucho está a gozar comigo, não está?
- Perdão?
- Isto não pode ser a sério… Ou então, pegando na sugestão do título, isto é um sonho que estamos a ter e estamos na verdade a dormir após uma empanzinadela de vinho de barril e entrecosto grelhado, para seguir a ementa do poeta.
- Não vejo fundamento para a sua reacção exaltada, Sr. Rubim. O poeta não podia ser mais sério. E nem eu nem o Clube Casmurro somos um sonho. Ademais, quem se atreveria a um sonho destes? Acordaria exausto com o trabalho de decodificar tanta referência erudita, afora as encriptadas.
- O sonho era a hipótese simpática, meu caro. Porque se não estivermos a sonhar isto, ou algum Jorge Luís a sonhá-lo por nós, então só lhe posso dizer que é uma piada de muito mau gosto.
- Confesso a minha perplexidade… E protesto a minha inocência, senhor.
- Seria preciso que eu alimentasse ilusões a respeito da sua virgindade…
- O senhor ofende-me!
- Vá mas é dar de comer ao gato! Quem tem de estar ofendido aqui sou eu! Isto é poema que se apresente? Sem querer puxar pelos galões, sempre tenho alguns livros publicados, vários por publicar e um nome a defender. Isto é coisa para dar a um assistente estagiário que ensine as poeticazinhas básicas desde os gregos aos alunos de Introdução aos Estudos Literários.
- Não me parece assim tão básico, com franqueza. O poeta conhece manifestamente autores, a mitologia grega, domina o requebro do verso, tem vocabulário…
- E primarismos em abundância, acrescente aí à lista. De um lado o indizível, a estranheza, o ilegível, do outro o «contágio sentimental» (gostei desta: parece uma metáfora muito cínica para a Sida…) e o «pudim de merda» dum cão (acontece a todos e dou-lhe razão, pois é um signo óbvio da nossa falta de civismo; é porém metáfora generosa em excesso, sobre ser pirosa). Só fico com pena que ele não esclareça os antónimos de «água cristalina, vinho de barril, entrecosto grelhado». Don Pérignon, Barca Velha, regime vegano? Ou água salobra, cerveja alemã, salmonete grelhado? É que, dependendo destas oposições, assim resultará uma ou outra orientação poética… Nestas matérias, há que ser especioso. Quem tinha razão era a Natália Correia: a poesia é para comer. E beber, ao que parece.
- Peço desculpa, senhor, mas é isso uma análise literária? Olhe que eu também li os manuais, e leio regularmente o Sr. Prado Coelho. Há um mínimo de decência na crítica que tem de passar por reconhecer a validade e coerência intrínseca do texto. Caso contrário, limitamo-nos a sujeitar o objecto à nossa axiomática.
- Quão bem se fala por aqui, caríssimo senhor! E quão dogmaticamente se segue a crítica formalista! Mas já reparou que o poeta, ele mesmo, não faz o que o Sr. Groucho defende, antes o seu oposto?
- Como assim?
- Olhe, acha que o autor disto alguma vez leu, ou sofreu (é o mesmo), De Man? Se o tivesse feito, meu caro, não o meteria na saca da «morte do autor», outra anedota, na versão dele (que não nos textos famosos em que a questão foi abordada). Só um tonto é que lê literalmente a expressão «morte do autor» para dela extrair efeitos tribunícios em verso. E só um ignorante é que diz De Man um apoiante das teses sobre a «morte do autor», quando ele estava bem mais interessado noutras coisas mais decisivas para ele – por exemplo, os atacadores de Archie Bunker… E as tolices sobre a França, santos deuses!, que se limitam a debitar o que por aí corre no subúrbio da vida cultural. Com que então a França não compreende «a queda, o susto, o nojo do mundo» em que ele tem a alma? E se o Groucho lhe escrevesse um postalinho a sugerir que fosse ler Monsieur Artaud ou Monsieur Bataille? Ou Monsieur Genet, já agora? Reparou também na forma caricata como o inconsciente «francês» acaba por vir à tona? Logo depois de manifestar o seu enfado pela França, eis que o seu poeta nos confessa que há «náusea» a correr nos versos supostamente banais dele! Que revelação! Lembra-se de um livrito chamado «A Náusea», Monsieur Groucho? Lembra-se da onda da náusea na cultura europeia? E vem-me o meu amigo dizer que devemos respeitar a «validade e coerência intrínseca do texto»! A única coerência deste texto é a da caricatura resultante da desonestidade intelectual. Respeite-a o senhor, se quiser perder o seu tempo.
- Mas isto é um poema, Sr. Rubim, não é um ensaio em Humanidades!
- Quer o senhor dizer que um poema, por não ser um ensaio, pode constar de um rol de inanidades e desonestidades intelectuais? Ou quer dizer que os poetas, por o serem, se podem dispensar de ler (o que se chama ler) os autores que executam em verso? Seria aconselhável que tratassem antes da serra de Sintra, se não se querem dar ao trabalho. Mas uma vez que gostam de citar autores, por que cargas de água haveríamos de reconhecer ao contrato poético o direito, que não reconhecemos em geral ao contrato intelectual, de deturpar e caricaturar aqueles que se cita? Porque há-de convir que este texto é bem menos um poema do que uma intervenção no «espaço público literário». Logo, por que razão não poderemos nós contestar a natureza desta intervenção? Por ser em verso? Batatas! Insisto no ponto: se os cita não os pode deturpar a priori ou dispensar-se de os ler. Ou acha que era isso que o Jorge de Sena fazia nos poemas culturalistas dele? Ou o Graça Moura? Ou o Fernandes Jorge? Ou o Murilo Mendes? Ou o João Cabral de Melo Neto? Ou o Ashbery? Ou o…
- Já chega, não precisa de me esmagar com nomes! Desconfio é que o senhor reage assim porque ele chama nomes pouco agradáveis aos críticos: «traficantes do sangue alheio», por exemplo.
- A sociologia do conhecimento desemboca sempre nisto, é fatal… Respondendo a isso, e com a máxima fleuma: 1) Como dizia o Ortega, naquela citação que o Sr. Serra antepôs ao livro dele sobre Ruy Belo, não leio poesia todos os dias e nem concebo que alguém em seu perfeito juízo o faça. 2) Conheço muitos e muitos ensaios que valem bem mais do que muitos e muitos poemas. No «valer mais» incluo também o valor estético propriamente dito, que não é exclusivo do verso ou da ficção, como o século XX nos ensinou abundantemente. 3) Essa frase tem montes de piada num poema que é todo ele uma traficância de sangue alheio, já reparou? Esta ideia tão básica e primária de que a crítica faz mediação e a poesia acede imediadamente ao sangue e ao coração, é boa para adolescentes e amadores (de poesia e não só), mas não resiste a uma ponderação mínima. Desde logo, não resiste à ponderação de que a poesia se faz com palavras, pelo que há que aprendê-las na cadeia longa que vem dos primeiros poetas até aos palavradores de hoje. Ficasse-se ele pelo sangue e pelo contágio sentimental, por que diabo andaria a gastar tempo com versos, que são a versão e ficção escrita de tudo isso?
- O senhor está mesmo impossível. E não há maneira de alguém neste clube levar o meu teste a sério… Quer então tentar adivinhar o nome do autor?
- Está de novo a gozar comigo, não está?
- Mas…
- Esquece que eu acredito na «morte do autor»?... E que tenho a namorada à espera, já agora? Valores mais altos do que os da poesia, percebe? O sangue, o contágio sentimental… Adeus, Groucho, até logo. [Afasta-se rapidamente]
- [Acenando em desespero e gritando] Sr. Rubim, eu digo-lhe o nome! Talvez assim a coisa faça mais sentido para si!
- [Gritando ao longe] Nem pense nisso! Eu nem gosto de vinho de barril…
- Eu digo-lhe na mesma! É do… [Rubim dobra a esquina e já não ouve]