12 julho 2005

No Livro Aberto (4, o dicionário)

(Grande algazarra, barulho de cadeiras. Regressa a corrente eléctrica. Nenhum ruído surdo, nem mudo: não há corpos a caírem pesadamente no chão.)

FJV — Disse há pouco que é necessário, e até prático — lembra-se? —, consultar o dicionário quando se lê. Costuma ir ao dicionário muitas vezes? Que dicionário é que usa?
G — Que pergunta! Claro que vou ao dicionário muitas vezes, várias vezes ao dia, frequentíssimamente, se me dá licença. Detesto superlativos, que dão feição monumental às ideias: pernas longuíssimas a ideias brevíssimas, como dizia o outro casmurro, o original, o autêntico.
FJV — Há um casmurro autêntico?! E original?
G — Claro! Pensava que eu era o único simulacro? Nada disto existe, tudo é ilusão e mentira. E sabe que mais?
FJV — Sim, diga, já agora…
G — O senhor mesmo, aí de mangas arregaçadas… aqui divulga-se livros, mas o senhor não passa de vulgar prosopopeia.
FJV — Perdão, «divulga-se» ou divulgam-se»?


(Grande algazarra, barulho de cadeiras e copos. Falha outra vez a corrente eléctrica. Um ruído surdo, como se cinco corpos caíssem pesadamente no chão.)