12 julho 2005

No Livro Aberto (3, o fantasma)

(Grande algazarra, barulho de cadeiras. Regressa a corrente eléctrica. Nenhum ruído surdo, nem mudo: não há corpos a caírem pesadamente no chão.)

FJV — Não quer explicar melhor essa inclinação, como disse há pouco, isso de não acreditar que existam figuras de retórica…?
G — Ora, não era a sério, foi uma figura. Para me fazer interessante. É claro que acredito na existência de figuras de retórica. Como acredito na existência de fantasmas. O meu livro…
FJV — Fantasmas? Isso agora é metáfora, não?
G — Não, não é metáfora. Aliás, não há metáforas, sabia? Nós é que as presumimos para dar sentido ao que dizemos. Mas no meu livro…
FJV — Perdão, «para dar» ou «para darem»? Ou «para darmos»? Somos nós ou são as metáforas que dão sentido?
G — Acabei de dizer que as metáforas não existem: como podem dar sentido? Nós é que damos, claro… Vou explicar no meu livro que…
FJV — Então é «para darmos», ou não?

(Grande algazarra, barulho de cadeiras e copos. Falha outra vez a corrente eléctrica. Um ruído surdo, como se quatro corpos caíssem pesadamente no chão.)