12 julho 2005

No Livro Aberto (1, a denúncia)

— Venham cá depressa, o Groucho está no Livro Aberto
— Com o Viegas? Que raio foi lá ele fazer?
— Pouco barulho, deixem ouvir.

FJV — Voltemos agora ao que o trouxe aqui, a primeira razão, os Caderninhos de Retórica. Já explicou que não têm esse título…
G — Exactamente, é uma falsificação grosseira. Aquilo que divulgaram são apenas 40 folhas avulsas dum livro vasto, em que ainda trabalho, e que se chama Tropos, Figuras: Prolegómenos e Facécias. Chamar-lhes «caderninhos», é diminui-los, e «de retórica», uma falsificação, que denuncia péssimo entendimento da retórica, estreito, como se fosse mero catálogo de figuras, porque a retórica…
FJV — Espere, volte atrás um momento, e explique-nos como se passou tudo, como publicaram as folhas sem o seu consentimento…
G — Não posso explicar, não fui eu, não é? Só pode ter sido duma maneira: devassaram-me o quarto, o que é ilegal, absolutamente ilegal, e portanto ninguém viria contar-me. Eles protegem-se uns aos outros, sabe?
FJV — Eles?! Eles, quem?
G — Oh, eles… os presumidos, os pretensiosos…
FJV — Tenho dificuldade em perceber isso, parece-me que não tem provas do que afirma, e aliás os caderninhos foram divulgados com indicação clara do seu nome, a autoria ficou marcada…
G — Ah sim? Isso não sabia. Claro que muda um pouco o caso. Mas não deixa de haver furto. E abuso, abuso grande, enorme. Mas tem a certeza do que me diz? Garantiram-me que o crédito do tal caderninho andava atribuído a um dos parasitas do clube, um certo Abel Barros Baptista…
FJV — Mas se foi ele mesmo quem me pediu para o trazer aqui!
G — «Quem me pediu» ou «que me pediu»?

(Grande algazarra, barulho de cadeiras e copos. Falha outra vez a corrente eléctrica. Um ruído surdo, como se dois corpos caíssem pesadamente no chão.)