13 julho 2005

A ilha, quê, deserta?

― …Para o senhor, portanto, o romance de Stevenson seria o livro que resume ou concentra toda a literatura, o livro capaz de dispensar todos os outros livros?
― Percebeu mal, Groucho. Nenhum livro dispensa, resume ou concentra o que quer que seja. Nenhum. E para ninguém. Os livros são como pessoas e não há pessoas que dispensem, resumam ou concentrem as outras pessoas. Só confundimos as pessoas umas com as outras quando sofremos de alguma perturbação da memória. A confusão é deplorável, em livros e em pessoas, por igual.
― Mas não estava a dizer que se ficasse sozinho na tal ilha lhe bastava o romance de…
― Sabe, Groucho, esse pequeno mito do naufrágio na ilha deserta não serve para decidir que livros substituem os outros. Serve, quando muito e nisso é inteligente, para saber se há livros que possam substituir a liberdade de escolher qualquer livro, porque a liberdade de escolher qualquer livro é o meio em que se movimentam tanto os livros como os leitores. Não sei se já pensou nisso, Groucho, mas o leitor é sempre libertino. A libertinagem é a condição feliz e despreocupada do meu desejo de leitor, e nesse mito literário o naufrágio vem, tragicamente, interrompê-la. É uma grande violência passar de mil e três para cinco ou seis, nove ou dez, mesmo quinze ou vinte. Mas posso supor, como já não sou novo, que me cansei de andar de livro em livro como quem anda constantemente de corpo em corpo, que quero reunir um harém mais restrito e aproveito o naufrágio e a ilha para experimentar uma concubinagem menos cansativa (não se trata de casamento, a pergunta nunca visa o livro único, é toda a sua sabedoria). Repare que, nesse caso…
― Nesse caso, o senhor escolhe grandes livros e acaba por confirmar o cânone, não é assim? Ou pelo menos de contribuir para ele, não?
― Nem pense, Groucho! Pelo contrário. Nesse caso da ilha deserta (partindo do princípio de que ainda há ilhas desertas…) eu fico dispensado de me preocupar com qualquer espécie de cânone ― deixo essa angústia aos que não embarcaram e continuam por lá, no mundo da grande biblioteca que eu perdi.
― Vai daí, só escolhe livros de que goste, assim como quem satisfaz, por fim, todos os fetiches sem se sentir culpado…
― Oh homem, você precisa de viajar mais! Se eu não sei quantos anos vou ficar na ilha, se alguma vez de lá voltarei ao mundo povoado, como quer o Groucho que eu não seja cuidadoso na escolha? Os livros têm de se adequar a essa vida solitária de duração incalculável, não acha? Tenha paciência, mas o prazer aí não pode empanar o pragmatismo!...
― Ah também leva livros que o aborreçam?
― Não desconverse, Groucho. Sabe que mais? Consigo é que eu não queria ir para a ilha, pode ter a certeza. Antes cultivar o diálogo interior… ou o monólogo exterior, à maneira dos doidos.
― O senhor já disse que os livros são como pessoas: se leva livros, com certeza não precisa de mais ninguém, nem sequer da minha obscura pessoa…
― Obscura? Espere lá! Você é um dos “herdeiros de Homero”? Ó Sr. Baptista, Sr. Baptista, venha cá! Leve-me este homem daqui! E depressa, antes que eu…!