03 julho 2005

How to Make an Angel



























Não sei se Lester Bangs alguma vez escreveu sobre os Cramps. Psychotic Reactions and Carburetor Dung não lhes dedica uma palavra, mas trata-se, como é sabido, de uma selecção póstuma de textos, levada a cabo por Greil Marcus. Haverá, no espólio da Creem, alguma coisa não incluída em livro? Não faço ideia, mas dada a comum paixão pelo punk e protopunk de ambos os autores, custa-me a crer que um putativo texto sobre os Cramps não fosse seleccionado por Marcus.
Em todo o caso, não é difícil encontrar nos escritos de Bangs alguma coisa de que nos possamos apropriar para colocar ao serviço dos Cramps. Por exemplo, este excerto de «The Clash», longa reportagem-ensaio sobre os ditos e a cena punk inglesa. Bangs refere um detractor de Joe Strummer, que lhe terá chamado a atenção para o carácter middle-class desse (afinal não tão) líder da classe operária. Ei-lo, no seu melhor, reagindo ao detractor:

Which is fine for me: Joe Strummer is a fake. That only puts him in there with Dylan and Jagger and Townshend and most of the other great rock songwriters, because almost all of them in one way or another were fakes. Townshend had a middle-class education. Lou Reed went to Syracuse University before matriculating to the sidewalks of New York. Dylan faked his whole career; the only difference was that he used to be good at it and now he sucks.
The point is that, like Richard Hell says, rock’n’roll is an arena in which you recreate yourself, and all this blathering about authenticity is just a bunch of crap.
(Carburetor Dung…, p. 227)

Os Cramps, desde o composto musical (rockabilly, punk, garagem, etc.) até ao visual e à arte do nickname sempre foram uma exponenciação desse fake. O título do último CD, How to Make a Monster, diz tudo sobre a questão. E contudo, existe pelo menos um momento na longa carreira dos Cramps em que o grão de verdade do fake se revela a uma luz algo dolorosa. Esse momento ocorreu a 13 de Junho de 1978, quando a banda deu um concerto no Napa State Mental Hospital, na Califórnia. O DVD do concerto é provavelmente o maior embuste da história da indústria. Filmado com uma Port-a-Pack errática e com um microfone apenas, num preto e branco granulado e dominado por cinzentos voláteis, o registo não dura sequer 30 minutos, coisa que o preço final não reflecte de modo nenhum. Contudo, este embuste industrial é um registo fundamental – da história do rock e da performance contemporânea.
O concerto não tem propriamente lugar num palco, mas num sítio desnivelado em relação ao público por efeito apenas de uma escadas discretas. Também por isso, não chega a haver solução de continuidade entre público e músicos. Lux Interior abandona o micro por vezes e dança entre o público; alguns dos pacientes-espectadores pegam no micro e «cantam». Muitos deles estão sempre em cima do palco, dançando entre os músicos (Poison Ivy sorri olimpicamente, à guitarra). O efeito do canto dos espectadores, diga-se, é muito consistente com a música dos Cramps, mesmo quando se limita a gritos sincopados. Num certo momento, em «Human Fly», Lux regressa ao «palco» e partilha o micro com uma espectadora que não o quer largar: ele canta, ela grita com um irrepreensível senso do ritmo.
A abrir a performance, ouve-se Lux Interior a declarar: «We’re The Cramps... Somebody told me you people are crazy but I’m not sure». O comportamento do público não ajuda a certezas na matéria. Por vezes, comporta-se dentro dos protocolos do concerto rock (pelo menos um número significativo de espectadores); outras vezes, alheia-se quase por completo, folheando um jornal, mexendo num cachimbo, dançando e rindo como quem está muito noutra, etc.
Dizer, como faz um cliente da Amazon a propósito do DVD, que a correcção política não autorizaria hoje um espectáculo destes, é um erro de paralaxe muito dos nossos dias. Se um tal concerto é possível em 78, isso deve-se seguramente a toda a crítica lançada contra a psiquiatria nessa década, crítica que, à data, se alinhava pela falange da correcção política (incorrectos, lembremo-lo, eram os electrochoques, o Grande Internamento e os fármacos como terapia, tudo coisas hoje de novo bem mais admissíveis do que nos anos 70).
Não é por isso, creio, que este concerto, esta euforia sem preço, provocam em nós uma dura e intermitente iluminação. É antes por, naqueles breves 30 minutos, como diria Lester Bangs, a treta da autenticidade ser derrotada sem remissão por algo que tendemos a esquecer com demasiada facilidade: as ilações, melhor, a lição do fake enquanto face alegórica – arrombada, esvaziada e dolorosa – da verdade.
How to make a monster. How to make an angel.