10 julho 2005

Emancipação e Kitsch

- Já reparou no nexo, improvável mas frequente, entre emancipação e Kitsch, Groucho?
- Refere-se às roupas das mulheres portuguesas que fazem política?
- Essa é mazinha, mas pertinente, tenho de admitir. Não, ia mais longe…
- Bem vejo: os senhores membros deste clube vêem todos muito longe… Até Marte, pelo menos.
- Não se amofine, homem! Deixamos o vestuário das nossas políticas para a próxima, fica prometido (podemos começar pelo look PSD: Leonor Beleza, Manuela Ferreira Leite, etc.). Olhe, por exemplo, o meu amigo vê aquela famosa série americana de TV sobre cangalheiros?
- «Sete palmos de terra…»? Diabo de maneira de referir uma obra-prima do audiovisual contemporâneo!
- Deixe lá a prima em paz. Quando entram esses melindres de parentela em campo, estamos tramados, pois já ninguém consegue dizer o que pensa em inteira liberdade.
- Admito que sim, e nem acho inteiramente mal que assim seja. Mas voltando então aos…
- … cangalheiros. Já reparou naquele casal gay? Diga-me lá qual das personagens é mais enjoativa? O negro, sempre com cara de Madre Teresa, ou o cangalheiro, sempre a fazer beicinho e a inventar ciumeiras?
- Acho que exagera. Não me parece um casal mais enjoativo do que é de uso em séries melodramáticas.
- Não podíamos estar mais de acordo. Com uma diferença não pequena: é que nas séries melodramáticas que refere os casais não são vitimados pela pedagogia da emancipação, como este é a toda a hora. A história deles ao longo da série demonstra isso com toda a clareza: sair individualmente do armário, assumir-se como casal, «todos diferentes, todos iguais», e porque não a adopção? (reparou como o pobre do casal tem de percorrer toda a filogénese do «casal gay»?), enfim, o melodrama redimido pela te(le)ologia da libertação.
- Não me vai dizer que aquela série, justamente por causa daquele casal, não é útil, no plano moral, social e político?
- Mas não estive a dizer outra coisa, Groucho! É precisamente a «utilidade» do casal gay, em todos esses planos, que o torna Kitsch até à náusea.
- Refere-se, se bem depreendo, à «lição»?
- Sim, claro, à «moralidade» apensa. Aquele casal lembra-me uma terrível frase de um amigo, infelizmente não tão famosa como merecia, sobre didáctica. Dizia ele que, na didáctica, a água corre sempre duas vezes debaixo da mesma ponte. É o caso daquele casal, e o resultado, improvável mas fatal, é o Kitsch.
- Não será antes Camp, senhor?
- Quoque tu, Grouchus?! Também leu Madame Sontag? O Camp, criatura simpática e inevitável, dotada ainda por cima dos poderes hegelianos da autoconsciência de um Espírito do Mundo!? Não me diga agora que é fã dos Queen?
- Deus me livre, senhor! Há Camp e Camp, apesar de tudo. Para o meu gosto, basta Wagner em figurinos de época…
- Compreendo, mas em sede teórica discordo: isso é a meu ver um caso clássico de Kitsch (a própria Sontag classifica Strauss como Camp, ao invés de Wagner: não me pergunte porquê). Como a ópera em geral, diga-se, com raras excepções. Uma tísica representada por uma cantora com um peso estimado de 6 ou 7 arrobas, o que há-de ser senão Kitsch?... Mas Sontag só vê Camp à frente dela, e tudo o que é artifício vai para o caldeirão.
- Vejo que não aprecia o ensaio em causa…
- Engana-se. Acho-o um dos grandes textos do nosso tempo. Porque é tão ensaio quanto manifesto, sem nunca o declarar; porque é um ataque demolidor à legitimação estética da «Grande Arte» (estas aspas são um dispositivo Camp, segundo Sontag, e eu aqui acredito piamente) e de qualquer «estética negativa»; porque é um tremendo case study sobre como inventar um objecto – e, já agora, sobre como dar a esse objecto uma consistência metafísica tão forte como a do espírito santo…
- Mas não acha então que o casal seja Camp?
- Nada. No máximo é piegas, e é-o muitas vezes, mas é mesmo pieguice pra valer, sem segundas leituras. Ou seja: é um casal como os outros... e toda a ideologia da série vive desse pressuposto: são (muito) diferentes, mas no fundo são iguaizinhos aos outros casais. O velho Humanismo, sem o qual pelos vistos não há Direitos Humanos. Há por vezes afloramentos de Camp em festas ou ambientes gay, mas a série é séria (é à séria, como se diz agora), sem aquela «seriedade fracassada» ou em segundo grau que define o Camp. Para resumir, o casal é Kitsch sem querer, coisa que é difícil atribuir ao Camp. E é Kitsch porque «tem muito a ensinar-nos» ou, noutro jogo de linguagem, porque «há um mundo a ganhar». Havia uma frase parecida sobre o proletariado no Manifesto Comunista, mas há que tempos não leio isso…
- Por exemplo, ensina-nos o direito dos gays ao casamento.
- Nem mais. Mas isso, como me dizia há dias o Sr. Serra a propósito da situação espanhola, é uma questão de justiça social pura e simples, não chega a ser um «grande tema», por mais que o Opus Dei e a sua Espanha o pretendam. Só que as questões da simples e pura justiça apenas se tornam tal após uma mais ou menos longa pedagogia e didáctica da emancipação. É para isso que há casais como o dessa série de cangalheiros. Mas é também por isso que uma das vítimas dessa lógica é o dito casal… Imola-se no altar da emancipação, digamos.
- Bem vistas as coisas, não há nada tão Kitsch como um casamento…
- Aí é que já tendo a discordar de si e a seguir antes Sontag: parece-me mais Camp…
- Mau, agora é que já não entendo nada…
- O fundamental não é entender, e menos ainda interpretar, mas manter uma relação erótica com a arte…
- Alto lá, pilha-galinhas! Isso é do «Contra a Interpretação»!
- Ná, é mas é do Tom Jones. Ora ponha aí o Best Of dele, que já não oiço isso há qu’anos!
- Não pode ser antes a orquestra do James Last a tocar o Tom Jones?... É menos «classe operária», senhor…