23 julho 2005

Corporis fabrica (III)




A lógica do arquivismo anatómico procede da Morte e fabrica o Morto. O bisturí de Vesalius violenta a pele, a veia, músculo, o órgão, e a pressão desse instrumento repete—se na impressão do risco do desenho e da letra da legenda. O Corpo é extirpado em nome de uma sua Ideia, que o remete à condição de cópia ou acidente. Pressão e impressão obedecem a uma mesma violência que, como tal, só pode ser exercida sobre um Cadáver, todavia não sem um sentido de obscenidade [violação do corpo/sacrário] que obriga a uma certa ocultação. A racionalidade desta Anatomia como arquivo do Morto prolonga—se na versão digital recém concluída por The Visible Human Project. Ambos arquivos estão unidos pela redução da mediação do Corpo à sua visualização. Risco, letra [quer escrita, quer impressa], ou dígito reduzem a sensorialidade do Corpo a uma cifra óptica, facto enquadrável na Modernidade como história do sentido visual [McLuhan]. Tanto o De Humani Corporis Fabrica como The Visible Human Project são mediações ópticas da Ideia corporal, tendo excluído por completo a corporalidade como sensações, gestualidades ou apodrecimento.
Imagem: instrumentos de dissecção Vesalius.